por Eidos Nemer

1. Introdução
A União Soviética caiu, e o Ocidente encontrou-se sobre a iluminação da liberdade econômica que não tardara em ratificar a nova pedra angular do planeta. God bless America, isn’t it? Não é um fato estranho à aqueles que procuram estudar fora do domínio catedral da educação institucional que, a grandiosa América sobre o domínio de Roosevelt estabeleceu uma economia quasi-corporativa sobre o pretexto da Grande Depressão - que aliás possui grande parte da culpa de acionistas retardados que produziram uma crise de superprodução extrapolado de bens de consumo - e que daria inveja ao planejamento de preços da CCCP. Enfim. Por que eu apresentei esse contexto? O futuro da economia americana fincou-se sobre uma nova espécie de elite, não a velha elite da burguesia capitalista dita por marxistas messiânicos, mas a uma cúpula de administradores perspicazes que sabem manter o controle das organizações políticas que vai da retenção dos lucros à forma como partidos são organizados numa democracia, esta teria um significado somente artificial.
O ponto principal dessa discussão é: a América e a Europa estariam sobre uma influência de uma direita remodelada. O iluminismo surtiu efeitos na decadência do ancien régime, difundindo seu espectro de luz a longo prazo, porém como Hayek e até Paul Johnson haviam escrito, o progressismo possui tempos históricos divergentes. O primeiro se refere à Independência Americana, onde Washington iria varrer a Europa com novas ideias constitucionais, o progressismo “Old Whig”, e o progressismo pós WWI onde iria se caracterizar pelo panssexualismo de Freud, relativismo de Einstein e etc. O progressismo “Whig” após a Segunda Guerra iria colocar por estado terminal o conceito de “estado-nação” criada por seus predecessores, outrossim a microeconomia lastreada por trocas mútuas peer-to-peer. Isso é essencial, crucial, pra entender a divergência da teoria política da direita encontradas hoje.
O mundo pós-segunda guerra mundial criou uma cisão entre a teoria política marxista, Paul Gottfried acertadamente a descreve como uma “morte estranha”. De fato, o fim das repúblicas soviéticas esclerosou o pensamento da esquerda a abraçarem o “wokeísmo” (assim digamos). Eu diria que continuou o legado de Freud, mas é meu palpite. Enquanto ainda sobre domínio da URSS, a contra-parte da Alemanha Oriental sofreria por um surto intelectual de novos pensadores que no futuro colocariam em solo americano todas as ideias marxistas sobre uma nova roupagem. Aí entramos na questão da Escola de Frankfurt.
2. A Guerra Cultural
Sabemos dos efeitos da Guerra do Vietnã, sabemos dos efeitos das tropas de Lyndon Johnson na Ásia e a obliteração de sua imagem. No entanto, devemos saber que tal evento, juntamente da Escola de Frankfurt, foi o impulsionador da revolta da esquerda que dura há séculos. A revolta contra o sacerdotismo, da ordem e da simetria hermética homem-indivíduo-Deus à uma desordem entrópica da cosmologia é presente desde que Deus criou o universo, e em 7 dias criou a Terra, e depois criou Eva às costelas de Adão, e por culpa dela, e da serpente, ferramos com toda a linhagem da humanidade por nossos desejos desenfreados de tornarmos poderosos e sábios. O poder surge daí, da tentativa humana de emancipar o mal de sua própria natureza e se redimir ambas por tentativas supra-humanas ou políticas. Portanto, qual a necessidade de emancipar algo provinda de algo sobrenatural e, não somente isso, tentar apagar e ofuscar a necessidade humana de pertencimento no espaço? O vazio ontológico criado por tais fatores propelem no desenvolvimento da Vontade do Poder, que tanto dira Nietzsche. O delírio esquerdista pelo controle da salvação histórica surgiu disso.
Deixando as hermenêuticas bíblicas de lado, a priori, ideologias políticas se competem num barril de pólvora pelo monopólio da informação. Até a década de 70 a “Guerra cultural” era um fenômeno desconhecido por parte da opinião pública. Porém, um grupo acadêmico de novos marxistas souberam utilizar do desconhecimento popular a fim de construir suas estratégias políticas por meio de, ou uma ação em conjunto com o Estado, ou outrora por meio das cátedras universitárias. Não assustem que livros sobre Beauvoir são mais lidos e reeditados que qualquer livro dos filósofos gregos da Idade Áurea. Este fenômeno no Brasil torna-se ainda mais preocupante por haver um niilismo histórico de longa data.
Como o professor Olavo de Carvalho já dizia em suas proféticas opiniões n'O Futuro do Pensamento Brasileiro, nossos temos uma cultura egocêntrica que pratica cherrypicking museológico de nossos símbolos cujo valor universal é ele mesmo, e o destino cultural desse país sobre esta condição é a perda das suas qualidades deixadas pelos breves momentos presentes de nossos antecedentes. Uma cultura, sobre sua autoria, é definida por substratos inferiores, referentes às relações temporais e de pouca influência histórica mundial, um hedonismo pueril, e o substrato superior, que nasce de nossa relação intemporal com diversas cultural e, daí, urge o significado simbólico espiritual de uma civilização e seu valor universal. Em outras palavras, o substrato inferior é a cultura nivelada por baixo que serviu de apologia por Plutarco.
O Brasil destoa-se fortemente do cenário internacional quanto a guerra cultural. Em seu insigne livro The Rise of the Alt-Right, Thomas J.Main comenta de forma exímia, ainda sendo um esquerdista proeminente, não somente do funcionamento da estrutura de ideias, também não obstante do funcionamento da publicação das ideias da direita alternativa, da qual deriva de uma visão do establishment do neoconservadorismo surgido nos anos 50, por meio de blogs e plataformas independentes. Vejamos que, durante os anos de 2016-2020 alguns deles superaram o marco de telespectadores da plataforma do Estado Washington Posts. E vemos ainda que Steve Bannon utilizou habilmente de sua influência na bem-sucedida campanha trumpista, culminando numa versão “amenizada” do movimento intitulada Lite-Right. A base de suas ideias não apenas possuem um forte lastro do paleoconservadorismo do National Review, do excelente comentarista Samuel Francis, como da sociologia elitista. Mas não param por aí, os “alt-righters" afirmam solenemente que apenas seguem o legado etnonacionalista dos Founding Fathers. Conseguimos ver o porquê das ideias dissidentes arrombou a porta da América, possuem ideias que foram edificadas por séculos e possuem um valor universal traçada pela Independência, porém que foi sucateada pelo cosmopolitismo que teve seu apogeu no Ato Hard-Celler. Em contexto nacional estas questões complicam-se formidavelmente.
A começar, as relações interétnicas divergem-se radicalmente da América do Norte, a colonização portuguesa deixou de bagagem o pool gênico da moura encantada. As divergências mais loucas, também, refere-se a administração política. Alguns historiadores, como Raimundo Faoro, acentuam que existe um patrimonialismo homólogo à Coroa que culmina na péssima administração pública da nação, os vassalos do Rei sempre comandam nossos sistemas econômicos a fim de criar uma barreira de entrada que impede a casta baixa de ascender por excedentes. Não poderia estar mais enganado. É um erro pensar num salto histórico cujo nexo causal seja tão direto, você possivelmente irá cair em uma ideologia putrefata. É um fato inequívoco afirmar que a péssima administração econômica deriva desde os tempos de D. João VI por causa do Banco Central, por exemplo, é um equívoco traçar diretamente a vida cultural do Império a decadente Sexta República, não somente culturalmente, mas político e religiosamente.
Todos nós conhecemos a deprimente situação da República. Quando não há golpe sem consentimento de seu povo, há impeachment, quando não há impeachment, há improbidade administrativa. Quando não há improbidade administrativa, há um escandaloso sistema de corrupção envolvendo uma coalizão de partidos políticos se também não houver apoio de órgão internacional. O Estado republicano brasileiro é talvez a máfia mais perigosa desde a máfia italiana. A diferença da primeira pra segunda é que a segunda é organizada e serviu de base pro melhor filme do cinema. Por que chegamos a esse ponto? E ainda pior, por que a direta se sufocou a ponto de aceitar, feito uma cadelinha, todas as pautas impostas por, talvez, a mais sufocante época da história brasileira ambos intelecto, político, artístico, espírito, cultural, e economicamente?
3. Por que a Direita Perde?
O universo não é um processo de evolução, mas de involução. Aos acostumados a pesquisarem sobre os ciclos hindus, o universo, assim como todas as coisas, possuem um valor contingente ao “o-que-é". Isso significa que tudo possui vida, involução de seu estado primordial, e morte. O hinduísmo é mais revolucionário que a ciência por isso, partindo dessa perspectiva. O sistema cladístico da natureza precedeu Charles Darwin ainda na antiguidade, e averigua-se, ainda, em textos da Escola Tradicionalistas. Diversos são as críticas acerca da interpretação guenoniana acerca do esoterismo sufi, traçadas pelo Sedgwick e até mesmo pelo Olavo, porém, esse é o grande mérito deles, a revitalização de como a natureza funciona. Outrossim, existe um conceito da antropologia chamado “tempo mitológico”.
O que importa no estudo antropológico sobre o tempo caracteriza-se pelo presente e passado, ali desenvolvem-se as instituições, ambas políticas e culturais, e suas línguas, símbolos e suas relações com o supra-sensível. Existe ainda a formulação da Idade do Ouro, na qual depende da memória afetiva de certo grupo ao marco temporal na qual os heróis celestiais deram de presente à humanidade o seu heroísmo e o conhecimento da origem humana.
O termo “revolução” sempre couberam em narrativas jacobinas e marxistas, porém em minha deliberação a revolução esteve presente desde antigas etnias da antiguidade, como uma restauração da ordem original da natureza. A origem remota de “Ordem Natural" reside n’A República de Platão, cujo significado é homólogo da ordem superior à inferior. Não é precisamente o que Evola, por exemplo, delibera sobre a Revolta Contra o Mundo Moderno? O Império como organização política é o “checkpoint" da qual a estrutura de poder toma emprestado. Lógico que Evola possui uma carga literária bem densa que vai desde a política ao ocultismo hermético, este último inclusive estando presente como subtexto aos simbolismos católicos do pontífice papal, e nas hermenêuticas da Edda no assalto do fogo por Prometheus de Zeus à humanidade como um mythos da benevolência do imperador, e assim por diante.
A natureza do Estado sempre foi rodeada por um conflito de soberania contra democracia. Quem estudou o mínimo de filosofia política conhece as nuances acerca da semântica da palavra-serpente “democracia". Numa hora aparece como um regime popular auto-suficiente, outrora como um wellfare state da modernidade. Ou, a quem realmente se aprofundou no tema, conhece o conflito de Sto. Agostinho contra Eusébio. O poder espiritual do papado na Idade Média deveria ser acompanhado pelo poder temporal, mas o que sempre ocorreu foi um conflito do clero contra o Império secular. O exemplo principal disso é a tomada da Itália pelo Henrique IV, após ser excomungado por Gregório VII quanto a negação da proibição das investiduras leigas. Daí podemos falar da filosofia histórica de Agostinho, da qual a história é um evento de salvação por meio dos sacramentos cristãos, desvinculados ao poder imperial secular, contra o controle temporal de Constantinopla dita por Eusébio. Estamos adentrando na Teologia Política, e juro que isto fará sentido no final.
Carl Schmitt foi o primeiro a introduzi-la como uma disciplina da política, da qual o poder é legítimo quando o é soberano e deve ser sacralizado. Sob esse prisma, o liberalismo é possível a partir da crise da soberania. A Política, no entanto, separaria-se entre o substantivo próprio e um adjetivo, o estudo do arquétipo da Política é o que interessa o autor. Existem vários erros dentro de Schmitt, de fato, na qual os sucessores da Teologia Política explicariam como o “pai" do totalitarismo moderno. Mas uma coisa Schmitt, mesmo que de forma apologética, acertou; o Leviatã é insuperável. Isso implica que o estado mínimo, como levantado pelos liberais, é inatural e não corresponde à como funciona organizações ambas humanas e animais.
É ainda pior ao analisarmos a teoria anarcocapitalista do Pacto de Não Agressão, onde tenta emancipar da natureza humana algo que lhe vem inato, a estratégia e a coerção. Um depende do outro pra realizar efetivamente seus objetivos. No livro do Lawrence Freedman intitulado “Strategy: a History”, logo em sua introdução, nos conta de uma observação científica acerca de um grupo de chimpanzés. Por mais escrutínio que pareça, esses grupos de macacóides possuem habilidades intelectuais de manterem harmonia a fim de trabalharem em equipe ou estrategicamente organizarem uma facção pra manterem controle dos recursos naturais por meio da coerção. E o mais engraçado é que o autor nos conta a história da estratégia começando pela Bíblia hebraica e a briga de Satã contra Deus, casando com nosso quadro sinóptico acerca da Teologia Política. Dito e feito, Platão. A política é presente até na classe inferior da pirâmide trófica.
Tudo que é feito na política requer, inequivocadamente e obrigatoriamente; a estratégia, que envolve trabalho em equipe de forma harmônica e perfazer um objetivo em comum, e coerção, que envolve conflito da luta pela sobrevivência de um determinado grupo contra outro e seu controle territorial, o darwinismo toma-se partido como uma natureza política inescapável. Sobretudo, utilizar a artilharia e a infantaria como estratégia, conciliando a cautelosidade metódica de Sun Tzu e a violência espetaculosa de Clausewitz.
Existe um consenso na direita mainstream em se recusar a desenvolver estratégias que não extrapole o ponto do democraticamente aceito por Brasília. Não apenas isto, como o bloqueio de arquitetar um pensamento dissidente como vanguarda de um construtivismo vitalista a moda brasileira.Não é desconhecimento de ninguém acerca do nível intelectual dos representantes da máquina pública e dos louvados intelectuais acadêmicos. Dentro da nossa disciplina da Geopolítica, há um considerável descaso em catalogar os pensadores políticos e suas estratégias de acordo com o passar dos períodos, Barão do Rio Branco, Visconde do Uruguai, até Golsberry e Backheuser, em nome da elevação de figuras risórias como Jesse Souza e Miriam Leitão.
Partidos de direita, dentro do presidencialismo de coalizão, são obrigados a formar federações ou contratos com os opositores caso queiram ter alguma mobilidade de ideias dentro do Congresso, e, naturalmente, distorcer-se-á a um consenso mais liberal, ou aguentar a mídia lhes compararem a Hitler. Eis o maravilhoso sistema check-and-balance. Porém, como mencionado, a culpa é da inércia da direita quanto a aprender táticas que compreendam a estrutura lógica de suas ideias. E qual a consequência disto? Serem escrutinizados pelas novas gerações futuras como uma manada de lunáticos presos em ideologias insustentáveis e com baixo nível de estudo socio-cultural. O povo brasileiro sempre foi letárgico e comodista, fatores crux de uma cultura de alta preferência temporal, ou seja, uma maior resignação do futuro em detrimento do presente. Um exemplo cômico é a utilização do Bolsa-Família em casa de apostas, cuja dívida especulado com a última supera os 20 bilhões de reais. Como fintechs, ou derivativos financeiros, irão atuar como instituições econômicas sólidas num país que negativar seu nome no Serasa é quase um imperativo moral pelo sustento de seus desejos pérfidos?
O monopólio da informação é há séculos assegurado como a principal forma de formar um poder político estrondoso.Tão grande que até os marxistas começarem a usar a Direita convencional encontrou-se estrangulada. Como estou a descrever, a forma de estabelecer uma hegemonia é através da tomada da cultura e da educação, ao modo Trasímaco. A maior ironia do destino foi o surgimento da, já dita, direita alternativa americana. Reforçando, como chute a uma cadela parindo seu filhote, este país tropical está a anos luz atrás de qualquer tipo de evolução informacional em meios político-culturais. Não há forma de combater um poder já consolidado por meio do “toma-lá-dá-cá". Portanto, minha análise crítica do cenário político é; 1) a inevitabilidade de uma revolta sanguinária contra a modernidade, na qual o Brasil irá participar ou como camarote ou como, de alguma forma, um participante ativo por influência internacional; 2) a Direita revestir-se com uma weltanschauung sobre a ideologia, e de forma milagrosa formar uma hegemonia cultural a ponto de separar dois Brasis no meio; 3) esperar o ponto de catástrofe global, sobre as formas econômicas e políticas, da qual naturalmente a civilização humana estará no início de um novo ciclo cósmico e da Nova Idade Média, e então, acabar por estruturar a sociedade novamente, como no fim do Império Romano Ocidental porém mais brutal e niilista. (Feliz, Faye?)
Matar qualquer senso de pertencimento ao espaço e tempo, e por conseguinte os vestígios históricos da distopia epopeia da atualidade e da construção romântica da existência humana frente a superação a tal, terá consequências trágicas e notórias ao messiânicos do Cristo “democracia", que há tempos que a Europa nos dá avisos.A martirização do Cristo Redentor prematura o Juízo, tilitando o sangue do solo à sua completa drenagem. E então haverá a coração do Reino de seu Pai!