escrito por imperador Luiz felipe

Com a vitória de Donald Trump, vem também críticas contundentes em relação à política externa gerida pelo governo americano há décadas e uma defesa de medidas mais isolacionistas. É de natureza clara que Trump nutre opiniões não-intervencionistas e faz objeções ácidas ao envolvimento dos Estados Unidos em vários assuntos internacionais, como nas sucessivas guerras do Oriente Médio e no envio de armas e dinheiro para a Ucrânia na guerra contra a Rússia. Durante o seu mandato, Trump se retirou de diversos tratados internacionais, como o Acordo Climático de Paris, a Parceria Transpacífica (TPP), o Acordo Nuclear com o Irã e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), e ameaçou se retirar de outros, como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e inclusive a própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Toda essa aversão ao intervencionismo praticado pelos EUA faz parte da agenda política de Trump "América First", que justamente visa colocar os interesses do povo americano em primeiro lugar, dando maior ênfase nas questões internas. No entanto, para quem pensa que o posicionamento de Trump é estranho e que os EUA sempre tenderam para o intervencionismo, a história norte-americana comprova justamente o contrário, que a tradição da superpotência do Norte até o século XX era de se manter a parte de conflitos e disputas internacionais.
“COMÉRCIO COM TODAS AS NAÇÕES, ALIANÇA COM NENHUMA”

Do final do século XVIII até o final do século XIX, a tradição dos políticos de Washington era de manter a neutralidade geopolítica nos assuntos de outros países. Isso era seguido principalmente em questões envolvendo a Europa. As relações internacionais eram pautadas somente no comércio com os países, e não no firmamento de conexões políticas e alianças, muito menos na intromissão nos assuntos internos alheios. Isso pode ser evidenciado no discurso de despedida de George Washington, em 1796: “A grande regra de conduta para nós, em relação às nações estrangeiras, é estender nossas relações comerciais, para ter com elas o mínimo de conexão política possível. A Europa tem um conjunto de interesses primários, que para nós não têm nenhum, ou uma relação muito remota. Portanto, ela deve estar envolvida em controvérsias frequentes cujas causas são essencialmente estranhas às nossas preocupações. Portanto, deve ser imprudente de nossa parte nos implicarmos, por laços artificiais, nas vicissitudes comuns de sua política, ou nas combinações e colisões comuns de suas amizades ou inimizades.” Thomas Jefferson também corroborou essa linha de pensamento no seu discurso inaugural de 4 de março de 1801, onde disse que “um dos princípios essenciais do nosso governo é o de paz, comércio e amizade honesta com todas as nações, não enredando alianças com nenhuma”. Ele também afirmou que “Comércio com todas as nações, aliança com nenhuma deveria ser o lema dos Estados Unidos.” a política de não intervencionismo continuaria sendo seguida por todo o século XIX. Em 1863, depois do czar russo Alexander II ter reprimido a Revolta de Janeiro na Polônia, o imperador francês Napoleão III pediu aos Estados Unidos que se juntassem a um protesto contra o czar. O secretário de Estado William H. Seward, entretanto, recusou firmemente, defendendo a política de não intervenção a outras nações, insistindo que “o povo americano deve contentar-se em recomendar a causa do progresso humano pela sabedoria com que deve exercer os poderes de autogoverno, abstendo-se em todos os momentos e de todas as formas de alianças, intervenções e interferências estrangeiras”. Ah, se essa ainda fosse a política norte-americana nas relações internacionais! O não-intervencionismo acabou sendo abandonado na Guerra Hispano-Americana de 1898, morrendo de vez na sequência das duas guerras mundiais, o que enterraria de vez o isolacionismo estadunidense e inauguraria uma era de interferência do governo americano no globo.
A potencia Regional Isolacionista Transforma-se na policia do mundo

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como superpotência mundial e assim como a União Soviética montou alianças visando a consolidação de sua hegemonia geopolítica, dando início ao período da Guerra Fria. Contrariando os preceitos firmados pelos Pais Fundadores, o governo americano firmou alianças internacionais como a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a famigerada OTAN. Com a justificativa de combater a expansão do comunismo, algo irônico levando em conta a aliança com os soviéticos contra Hitler no momento em que este travava a maior cruzada contra o comunismo na história, o governo americano instituiu as doutrinas Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Carter e Reagan, que justificavam a interferência dos Estados Unidos em âmbito global visando principalmente conter o expansionismo soviético e a proliferação de governos comunistas, sempre levando em conta, contudo, a defesa dos interesses da camarilha de internacionalistas intervencionistas de Washington tão podres moralmente quantos os tirânicos marxistas de Moscou. Após o fim da Guerra Fria, em 1991, com a queda da União Soviética, os Estados Unidos emergiram como única superpotência mundial, dando a eles o direito de intervir em quaisquer regiões que quisessem. As ações intervencionistas desregradas estadunidenses acabaram estimulando reações de grupos dedicados a defender suas crenças e tradições do processo de hegemonização ocidental, levando enfim aos ataques de 11 de setembro de 2001, o que fez com que o governo norte-americano reagisse com a Doutrina Bush, declarando a Guerra ao Terror não só contra os responsáveis de efetuarem os ataques como também daqueles que fossem suspeitos de nutrirem sentimentos hostis aos EUA e de serem aliados da Al Qaeda. A Guerra do Afeganistão e a Guerra do Iraque foram consequências trágicas dessa doutrina. Milhões de cidadãos desses países e milhares de militares americanos foram mortos ou sofreram com feridas físicas e emocionais profundas. Para o povo americano, além de ter de lidar com o impacto psicológico dos atentados às Torres Gêmeas, ainda foi vítima dos abusos do governo americano no quesito da espionagem doméstica com a promulgação de medidas como a Lei Patriota, além do consequente e natural aumento de impostos e o desvio de recursos para o financiamento das campanhas militares internacionais, que poderiam muito bem ter servido para sanar os diversos problemas domésticos que o país apresenta. Do final dos anos 90 até agora, a OTAN, liderada pelos EUA, tem abarcado países do Leste Europeu que antes estavam sob a Cortina de Ferro e faziam parte do Pacto de Varsóvia, o que gerou tensões com a Rússia, antes governada por uma elite liberal pró-Ocidente, mas que depois da virada do século adotou uma postura mais nacionalista. Desde 2014, as tensões vinham aumentando com a alienação dos ucranianos para o lado ocidental, uma situação de tremenda preocupação para os russos em relação à soberania nacional russa. O barril de pólvora enfim explodiu com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o que fez com que os EUA ampliassem ainda mais a sua influência na região, destinando grandes quantidades de recursos financeiros e armamento para os ucranianos, prolongando um conflito que poderia já ter sido abreviado. Esse perfil intervencionista, contudo, está longe de ter o apoio de grande parte da população estadunidense e de muitos políticos. Frente a isso, vemos que Donald Trump pode servir sim como uma força que promova um retrocesso ainda mais radical que durante o seu primeiro mandato das políticas intervencionistas promulgadas tanto pelos neocons republicanos quanto pelos democratas.
A RESPOSTA ISOLACIONISTA

O filósofo Hans-Hermann Hoppe sintetiza muito bem o quanto o intervencionismo americano é deletério não só para os países oprimidos pelas políticas imperialistas ianques, como também para o próprio povo americano: “Em síntese: enquanto ficávamos mais indefesos, pobres, ameaçados e inseguros, o governo americano ficava cada vez mais ousado e agressivo. Em nome da 'segurança nacional', ele nos 'defende', equipado com reservas enormes de armas de agressão e de destruição em massa, através da intimidação de novos 'Hitlers', grandes ou pequenos, e de todos os suspeitos de simpatizarem com os 'Hitlers' em todo e qualquer lugar fora do território americano.” A resposta do povo estadunidense frente à postura que os Estados Unidos têm há décadas nas relações internacionais é majoritariamente negativa e ilustra de modo intenso os desígnios da população em querer que o governo foque primeiramente nos problemas internos do país. Uma pesquisa da Morning Consult sobre o uso do "América First" como tema do discurso inaugural de Trump em 2017 afirmou que 65% dos americanos responderam favoravelmente à mensagem inaugural "América Primeiro", com 39% achando o discurso ruim. Em abril de 2013, quando o governo Obama considerou seriamente intervir militarmente na Guerra Civil Síria, uma pesquisa descobriu que 62% dos americanos achavam que os “Estados Unidos não têm responsabilidade de fazer algo sobre os combates na Síria entre as forças governamentais e grupos antigovernamentais”, com apenas vinte e cinco por cento discordando dessa afirmação. Em dezembro de 2013, o Pew Research Center relatou que a sua mais recente sondagem, “O Lugar dos Americanos no Mundo 2013”, tinha revelado que 52% dos inquiridos na sondagem nacional disseram que os Estados Unidos “deveriam cuidar dos seus próprios negócios a nível internacional e deixar que os outros países se desenvolvam da melhor forma possível por si próprios”. Este foi o maior número de pessoas a responder a este quesito desta forma, uma questão que os inquiridores começaram a colocar em 1964. Apenas cerca de um terço dos inquiridos pensavam assim há uma década. Uma sondagem realizada em Julho de 2014 aos “eleitores do campo de batalha” nos Estados Unidos revelou que “77% eram a favor da retirada total do Afeganistão até o final de 2016; apenas 15% e 17% estavam interessados num maior envolvimento na Síria e na Ucrânia, respectivamente; e 67% concordavam com a afirmação de que “as acções militares dos EUA deveriam limitar-se a ameaças diretas à nossa segurança nacional”. Com relação à atual guerra na Ucrânia e o forte envolvimento da administração Biden na entrega de suprimentos à Kiev, sondagens de 2023 mostraram que apenas 17% dos americanos acham que o seu país “não está fazendo o suficiente” para apoiar a Ucrânia. Esta percentagem é a mais baixa desde o início da guerra.
AMÉRICA PRIMEIRO, PARA O BEM DOS AMERICANOS E DO MUNDO

Vemos que uma volta ao pragmatismo diplomático e ao isolacionismo político é uma forte tendência que paira sobre a sociedade americana e que carrega imenso apoio político e social. Só podemos esperar que Donald Trump fortaleça ainda mais suas tendências isolacionistas e caminhe em direção a uma administração realmente comprometida em colocar os interesses da América em primeiro lugar, porque isso significaria não só a satisfação dos desejos da população norte-americana, como também representaria um alívio para os povos de todas as nações do globo, podendo ser, dessa forma, livres do hegemonismo estadunidense. Torcemos para que esse mandato de Trump sirva como o início de uma nova era para os Estados Unidos, uma era que faça com que as lideranças de Washington voltem a se preocupar com os problemas internos do país ao invés de quererem resolver assuntos externos que competem exclusivamente à jurisdição de suas respectivas nações. Quando cada país se preocupar somente com seus problemas e parar de interferir nos assuntos do outro, aí sim teremos um mundo pacífico, harmônico e próspero!